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[Diário do Nordeste] Memórias e luta: dois anos da maior chacina do Ceará

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Para “manter vítimas mais vivas do que nunca”, familiares realizam programação em bairros da Capital

01:00 · 10.11.2017 por Theyse Viana – Repórter

O vermelho que tinge os olhos diz muito mais sobre o luto do que o preto da roupa que cobre o corpo. Mesmo convivendo com a ausência há dois anos, “a lembrança é presente 24 horas” nos cômodos da casa, no cheiro da comida, nos bancos da igreja e até no tatame do muay thai. Em lugares, objetos e sensações que ganham rostos quando vistos com olhos de saudade, não importa quanto tempo passe.

Afinal, “ninguém morre enquanto permanecer vivo no coração de alguém”, estampa a camisa vestida por Edna Carla Sousa, 46, uma das mães feitas órfãs pela Chacina da Grande Messejana, ocorrida em 12 de novembro de 2015. Para manter as 11 vítimas – filhos, esposos, namorados, irmãos, sobrinhos e amigos – “mais vivas do que nunca” e reivindicar a punição dos acusados, familiares e entidades sociais organizam, desde o dia 1º deste mês, uma programação de palestras, exposições e diversas manifestações artísticas em vários bairros e equipamentos públicos de Fortaleza.

Na tarde de ontem (9), o destaque foi a exibição, no Cineclube do Cuca Jangurussu, do documentário “ONZE”, produzido pelo coletivo Nigéria sobre a chacina. Nesta sexta (10), a partir das 17h, mães de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, integrantes dos movimentos Mães de Maio, Mães de Manguinhos e Rede Contra a Violência, participam de um debate “por memória e justiça” na Praça da Cruz Grande, no bairro Serrinha, localizado na Regional IV da Capital. As atividades serão encerradas no próximo sábado (11), com a “5ª Marcha da Periferia – #PorMemóriaEJustiça”, cuja concentração acontece às 15h, no Aterro da Praia de Iracema.

Até caminhar, além de ato de luta, virou gatilho para lembranças. Tanto que andar pelo entorno do Cuca Jangurussu e não projetar a imagem de Alef Sousa fazendo manobras no skate-amuleto tornou-se impossível para a mãe, Edna Carla, uma das líderes do grupo de apoio “Mães do Curió”, formado por mulheres que perderam entes queridos na maior chacina da história do Ceará. A cuidadora mudou de casa, de bairro, de postura. Adotou uma voz firme, que respalda o semblante de força e brada incessantemente por Justiça, mas embarga na saudade. Emudece ao lembrar dos biscoitos de goma que iam ao forno a pedido do “filho carinhoso, sempre entre abraços”. Entala ao falar do bolo de brigadeiro que nunca foi à mesa do tão sonhado aniversário de 18 anos de Alef, futuro militar do Exército. Não houve tempo.

“Meu filho não volta mais, eu sei disso. Ele não vai mais se olhar no espelho e perguntar ‘E aí, mãe, eu tô bonito?’ ‘Claro, neném, você puxou à mãe!’. Mas eu lembro dele e luto por Justiça todos os dias, pra que nenhuma outra mãe precise sentir essa nossa dor”, afirma Edna, que em maio deste ano viajou ao Rio de Janeiro, representando as cearenses, para encontrar outros grupos de mães que perderam os filhos para a violência, como o carioca “Mães de Manguinhos”.

Força

A “garra” da mãe de Alef, inclusive, é inspiração diária para a cabeleireira Ana Lúcia Costa, 42, que não consegue falar muito do marido José Gilvan, “porque começa logo a doer”. Ao contrário de Edna, ela não se mudou da Grande Messejana. Vive na mesma casa que abriga em cada canto a presença do companheiro que viveu ao lado dela por 18 dos breves 41 anos de vida. “Eu encontro força olhando pra minha filha. Preciso estar forte para fortalecer ela. Eles mataram uma parte da gente”, soluça, com olhos provavelmente incapazes de secar.

Porque, ainda que compartilhem “dores, lembranças e também muito apoio”, como, por um lado, se alenta Ana Lúcia; elas “não lidam, não sabem, não dá pra lidar com a falta diária”, retruca, por outro, Suderli Pereira, 53, mãe do adolescente Jardel Lima, morto aos 17, ao lado do Alef de Edna, mas sempre vivo na foto que a comerciária carrega, no cheiro do brigadeiro tão amado pelo filho e na quadra de futsal do Cuca Jangurussu.

Não só em novembro, mês alusivo à tragédia, mas durante todo o ano, as mulheres que transformam dor em ativismo se reúnem mensalmente em um espaço cedido pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca-CE). A assistente social do Conselho Regional de Serviço Social (Cress-CE), Márcia Lustosa, ressalta que os encontros são fundamentais não só para garantir suporte e cuidados psicológicos às famílias, mas para estimular discussões sobre a crescente violência urbana. “A maior questão delas é o julgamento. É esclarecer o que aconteceu e punir os culpados. Retomar o dia 12 é retomar o cotidiano”, reflete Márcia Lustosa.

Fonte: Diário do Nordeste

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